RECIFE Ela tem cara de garota de praia, jeito de boa moça e look low profile. Com essa descrição, fica até difícil acreditar que, aos 29 anos, Juliana Cavalcanti já tenha construído uma carreira de tirar o chapéu. Formada em Administração de Empresas, com pós-graduação em relações humanas, MBA em marketing e curso de business feito em uma universidade de Nova York, essa recifense empreendedora já tem duas empresas (uma só dela e outra com sócios) e é responsável pela implantação de novas tecnologias na empresa de teletáxi do pai. No meio de tantas tarefas, ainda encontra tempo para ajudar entidades beneficentes. E pensar que tudo começou com a venda de pipoca e limonada na frente de casa...
"Sou movida a desafios, conquistas, novidades. Estou sempre pensando um pouco na frente, no próximo passo, no que mais posso fazer. Esse negócio de ficar acomodada em um emprego ou em um relacionamento não é comigo. Acho que nasci assim. E se essas características não vieram impressas no meu DNA, com certeza elas foram moldadas pelo meu pai. Explico. De origem humilde, ele sempre soube que só existe uma maneira de ser alguém na vida: arregaçar as mangas e trabalhar - trabalhar muito. Cresci vendo papai suando a camisa para sustentar e criar nossa família, por isso, pensar de forma empreendedora sempre foi natural para mim. Quando ainda era criança, fazia limonada e pipoca e vendia na frente de casa. Eu praticamente dobrava a minha mesada dessa forma. Porque lá em casa não tinha essa coisa de "Pai, me dá dinheiro para isso, me dá dinheiro para aquilo..." Era a mesada e... pronto. Mais, só no mês seguinte.
Outro ponto positivo que o seu Nivaldo sempre bateu o pé foi com relação aos estudos. Assim que acabei o segundo grau, ele mandou que eu fizesse um curso técnico de Turismo. Meu pai achava importante ter logo uma qualificação, para o caso de não conseguir concluir a faculdade. Outra máxima do chefe da casa: universidade, só se fosse federal, porque não iria pagar uma particular. A mensagem subliminar que ele passava tanto para mim quanto para minha irmã mais nova, Gabriela, de 27 anos, era que precisávamos nos esforçar para conseguirmos alcançar os melhores lugares. E assim foi. Passei em Administração de Empresas na federal e, em seguida à formatura, engatei uma pós-graduação na PUC do Rio de Janeiro.
Nasce uma empresária da música Foi na cidade maravilhosa que a semente da minha primeira empresa germinou. Morei lá durante o ano de 2004, tempo que durou o curso. Um dia fui com alguns amigos a uma rave, festa que estava muito na moda naquela época, e fiquei impressionada com o tamanho do negócio: tendas gigantes, músicos internacionais, uma multidão dançando. Na hora comecei a pensar nas cifras, na quantidade de dinheiro que um evento desses deveria movimentar. E mais: sabia que em Recife ainda não havia nada parecido. Pronto! Me deu o estalo. A luzinha da oportunidade se acendeu.
Procurei os organizadores desse tipo de evento e fui juntando informações sobre patrocinadores, agentes, espaços, equipamento, investimento.... Eu buscava novos contatos, assuntava com um e com outro e pesquisava, pesquisava, pesquisava. De volta a Recife, em 2005, após um ano de preparação e munida de muita coragem, produzi a primeira festa. O resultado não foi exatamente como eu esperava, mas não entreguei os pontos. 'Desistir, jamais!' é o meu lema. Continuei na área e, em pouco tempo, minha empresa, a Liquid Sky, era referência de música eletrônica em Recife.
Estava tudo indo muito bem até que essas festas passaram a ser relacionadas, em todo país, com consumo e venda de drogas. Fiquei muito abalada com essa história, de pensar que as pessoas achavam que eu teria algum envolvimento com isso. Justo eu, que nem gosto de beber! Acabei vendendo a empresa e com o dinheiro comprei uma franquia da loja Chilli Beans, de óculos, relógios e outros acessórios. Além disso, continuava ajudando meu pai na empresa que ele criou, de teletáxi.
Minhas 'férias' do circuito musical não duraram muito tempo. Achava um desperdício abandonar todo o conhecimento e contatos acumulados nessa área. Então, em 2007, me juntei a quatro amigos e abrimos outra empresa com foco em som eletrônico. Mas, em vez de raves, produzimos festas mais exclusivas, em boates sofisticadas, com DJs e músicos em alta no cenário internacional. Agora, sim, meus investimentos comerciais estão diversificados. Finquei preseça no setor de transportes, do comércio e de lazer!
Receita para tanta energiaEssa trinca de trabalho, claro, cobra um preço: acordo cedíssimo. Às 6 horas já estou na academia. Isso mesmo. Adoro malhar. Faz bem para meu corpo, minha saúde e minha mente. Depois vou direto para a teletáxi, onde fico até a hora do almoço. Costumo comer em casa mesmo, porque assim consigo controlar melhor minha alimentação - faço o tipo mais natureba, com 0% de aditivos e conservantes. Ok, confesso: existe outro motivo que me leva ao doce aconchego do lar nessa hora. Aproveito para tirar um cochilinho. Lá pelas 14 horas já estou no shopping, na loja da Chilli Beans. E umas 18 corro para o escritório da empresa de eventos. Quando não temos show, assisto às aulas de um curso de preparação (este ano quero fazer uma pós em business pela universidade de Harvard, nos Estados Unidos). Se tem festa... Aí meu dia de trabalho vai até as 3 ou 4 da manhã.
Muita gente me pergunta como aguento esse ritmo louco. A resposta está na minha santíssima trindade: além do personal trainer, não abro mão da nutricionista e do médico ortomolecular. Essa combinação me deixa equilibrada e cheia de energia para cumprir minhas tarefas diárias. Além disso, não tenho o hábito de beber. O álcool acabaria com minha força e disposição.
Trabalho 3 X Namoro 0 Então, nem tudo é perfeito. Se por um lado estou completamente realizada com a carreira, no campo pessoal a situação não anda tão boa assim. Desde que terminei um relacionamento de dois anos, em janeiro de 2008, me intitulo solteira. Um namoro intenso. A gente chegou até a fazer planos de casar, ter filhos... Mas a relação foi se desgastando. Mentiras, cobranças, crises de ciúme infundado acabaram por minar a nossa história. Achei melhor colocar um ponto final e partir para outra.
Não desisti de formar uma família, a minha família (lembra meu lema? Desistir, jamais!). Sei que meu príncipe encantado está por aí, só falta a gente se encontrar. E quando isso acontecer, ele vai saber que a Cinderela aqui é superagitada, tem três trabalhos (até lá podem ser quatro, quem sabe...) e em todos vive rodeada de homens: dos taxistas, dos vendedores, dos quatro sócios na empresa de shows. Mas também vai saber que o mais importante para mim será ele.
O bom de fazer o bem Enquanto esse moço não vem, continuo aproveitando a vida, com minhas amigas e amigos queridos e minhas crianças e entidades que precisam de ajuda. É que, no meio dessa minha linda e louca rotina, reservo um espaço muito especial para incursões ao terceiro setor. Desde que comecei a produzir festas, inclusive as raves, sempre fiz questão de destinar uma parte dos lucros para associações que auxiliam crianças carentes ou doentes. Saber que ao produzir um show posso pagar minhas contas, proporcionar momentos de diversão para as pessoas que foram assistir e ainda ajudar a abastecer uma creche com leite em pó, fralda descartável ou kits de remédio me deixa muito mais realizada.
São essas pequenas-grandes coisas que fazem diferença na nossa vida - e na dos outros. Eu sou daquelas que acredita que a solidariedade pode deixar o mundo melhor. E existem tantas formas de colaborar... Eu, por exemplo, prefiro sempre comprar produtos que revertam parte dos ganhos para alguma campanha: crianças, aids, câncer, meio-ambiente, educação, animais... Se a causa é boa, tô dentro. Até rifa eu compro! Vai que aparece alguma em que o prêmio é um moreno alto...
Ser uma nova mulher recifense é...
- Saber que o bom humor compensa
- Adorar cantar em verso e prosa as belezas da cidade
- Beber vodka e suas combinações
- Vestir-se com maestria no estilo high low, que é misturar peças caras com baratas
- Usar a criatividade para ter sucesso profissional