A jornalista baiana Luciana Dias Kritski, de 35 anos, estava no auge do sucesso de seu programa de tevê quando entrou num ônibus que a levaria para Belo Horizonte. Jogada num precipício depois que ele se chocou contra um caminhão, revela onde buscou forças para reagir.
DESCOBRI TANTA coisa boa trabalhando que tomei a decisão de colocar em um livro o que não caberia no ar. Assim, com vários episódios gravados em adiantado, resolvi tirar algum tempo de férias para me dedicar à nova tarefa. Queria me situar na praia do Forte, perto de Salvador, um lugar lindo e inspirador. Mas, primeiro, segui de carro com meu irmão, André, de São Paulo até a Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso, para conhecer a casa onde ele estava morando. Quando cheguei, encontrei o Ronaldo, um amigo dele, e me apaixonei de primeira. Simpático e bem-educado, era proprietário de uma pousada. Antes disso, vivera 13 anos em Londres. André foi contra o romance, por julgá-lo um bom colega de farra, nunca o par ideal para mim. Ainda assim, desisti de ir para a Bahia e resolvi me fixar na Chapada para escrever o livro e ficar pertinho do meu novo amor. Ali, abri uma galeria de arte e comecei a dar aulas de artesanato para crianças, pois havia cursado também belas-artes. Depois de algum tempo, a relação entrou em crise e resolvi retomar meu trabalho na televisão.
ALÉM DE ASSUMIR o programa, também assinei um contrato de dois anos como garota-propaganda de um supermercado de Salvador. Disposta a contar as novidades à minha mãe, em dezembro de 2005 viajei ao encontro dela em Tiradentes, Minas Gerais, onde temos parentes. Na vta, mamãe sugeriu que eu fosse de ônibus até Belo Horizonte e, de lá, seguisse de táxi até o aeroporto para embarcar num vôo que me levaria à Bahia. A idéia me pareceu bucólica. Afinal, não fazia uma viagem assim desde a adolescência. Lembro que na véspera da viagem me bateu uma tristeza estranha, inexplicável. Embarquei às 2 da tarde em um ônibus amarelo da Viação Sandra. Quando entrei nele, senti uma sensação esquisita. O veículo não tinha banheiro, cinto de segurança nem aquela porta que separa a cabine do motorista. Meu lugar era logo na primeira fila. Por causa disso, não conseguia dormir e todo passageiro que entrava me dava uma bolsada. Cinco quilômetros depois de passarmos pela cidade de São Brás do Suaçuí, quando engrenávamos uma subida, vi descendo um caminhão na contramão. Em vez de desviar, o motorista deu uma freada e rodou na pista, até nos alcançar em cheio. Imediatamente, todos os vidros se quebraram. Na hora, implorei a Santa Luzia, a protetora dos olhos, que reservasse minha visão e meu rosto. Afinal, era o dia dela, 13 de dezembro.
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