Achou a proposta tentadora? Pois "doar" os próprios óvulos por uma bolada tem seduzido mulheres nos EUA. Por aqui a venda é ilegal, mas, se a moda pega, é polêmica na certa. Vidas em potencial podem virar mercadoria? É ético colocar preço no que é produzido por seu organismo? NOVA mostra o resultado de tornar o próprio corpo uma fábrica de fertilidade.
Imagine abrir uma revista ou jornal e encontrar um anúncio oferecendo dinheiro por seus óvulos. Você ficaria animada com a idéia? Pensaria logo se aquela sua amiga endividada venderia os dela? Ou deduziria que deve ser alguma nova pegadinha de marketing? Pois nos Estados Unidos essa prática é comum. Lá, onde o comércio é permitido, a propaganda fala da experiência maravilhosa de doar e ajudar uma mulher a realizar o sonho de ser mãe. Além disso, menciona uma recompensa: de 3 a 8 mil dólares. Uau! Ser generosa e... trocar de carro!
Ajudar uma semelhante e... fazer plástica! Parece irresistível. O que os classificados não explicam direito são as implicações de tomar essa decisão "altruísta". "Logo que comecei a receber injeções de hormônio, me senti irritada e sem foco", conta Rori, de 33 anos, que doou duas vezes. "Foi como passar semanas seguidas em plena TPM", completa. Já Anika, de 28 anos, viu sua barriga inchar após a remoção dos óvulos. "Parecia que eu estava grávida de sete meses. Demorou 20 dias para voltar ao normal", recorda.Aqui no Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) veta a comercialização. O que pode acontecer é a doação no sentido exato da palavra. No entanto, há indícios de que nem sempre é por bondade que algumas brasileiras estão tomando tal atitude - apesar de as clínicas de fertilização procuradas por NOVA negarem a informação. "Tive contato com duas moças que assumiram ter trocado seus óvulos por checkups e outra que contou ter recebido uma quantia em dinheiro", confirma a jornalista Cláudia Collucci, autora dos livros Por Que a Gravidez Não Vem? (Atheneu) e Quero Ser Mãe (Palavra Mágica). Especula-se que o montante seja de 800 a 1 500 reais. Se tivesse a chance, você colocaria preço em uma parte do seu corpo? Ou acha que seus óvulos, por serem vidas em potencial, não são mercadoria? É o que vamos discutir aqui.
Quatro anos atrás, a americana Karyn, de 29 anos, vendeu seus óvulos para sair do vermelho. Mais preocupada em saldar as dívidas, nem deu atenção ao fato de que um bebê seria gerado com o seu DNA. A ficha só caiu quando o médico a chamou no consultório para dar a notícia de que a criança havia nascido. "Pensei: 'Tenho um filho que nem conheço'. Fiquei assustada", conta. Em 50% dos casos, aproximadamente, a doação resulta em gravidez. O que significa que quem doa tem uma chance em duas de se tornar mãe biológica de um bebê. Se fosse você, imaginar outra mulher dando à luz uma criança com seus genes mexeria com os valores que carrega? Aconteceu também com a carioca Denise, de 27 anos. "Doei os óvulos que restaram de uma fertilização in vitro e soube que a receptora conseguiu engravidar com eles. E eu não", lembra. "Senti um misto de alegria e frustração ao saber que tenho um filho em algum lugar do mundo que nunca conhecerei, enquanto luto tanto para ser mãe." Para a psicóloga clínica Rose Melamed, especializada em reprodução humana, esse pensamento deve ser evitado. "Primeiro porque, uma vez feita a doação, não há como voltar atrás; e segundo porque é preciso lembrar que, embora a criança carregue o DNA da doadora, ela só nasceu graças à participação do casal receptor." A advogada Verônica, de 45 anos, do Rio de Janeiro, recebeu uma doação e compartilha o mesmo ponto de vista. "Sem o sêmen do meu marido nem o aninhamento e a nutrição do meu útero, seriam apenas óvulos como aqueles que desperdiçamos todo mês com a menstruação." Por isso, o melhor a fazer, para quem vê a idéia como forma indireta de maternidade, é refletir muito bem. De graça ou recebendo até 8 mil dólares por isso.
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