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A pílula e o cigarro me puseram numa cadeira de rodas

A paulistana Luciana Scotti era uma jovem ativa até ser vítima de uma lesão grave no cérebro que a deixou muda e tetraplégica aos 22 anos. Com muita força de vontade, ela recuperou o desejo de viver, reencontrou o amor, escreveu livros e hoje, aos 31, revela que é possível ser feliz depois de uma tragédia.

depoimento a Luiza Flores
Minha história seria igualzinha à de tantas outras moças não fosse pelo acidente vascular que me transportou para uma estrada assustadora, solitária e cheia de obstáculos. Aos 19 anos, namorando firme, procurei a ginecologista para escolher um método contraceptivo, pois não queria correr o risco de uma gravidez indesejada. Por indicação dela, optei pela pílula. Depois de três anos de uso ininterrupto, comecei a sentir dores de cabeça freqüentes e fortíssimas. Me queixei no consultório, mas a médica não deu a devida importância. Da mesma forma, ela ignorou o fato de que eu fumava desde os 16 anos. Combinados, cigarro e pílula agiram no meu corpo como um coquetel molotov, uma bomba que explodiu por meio de uma trombose, coágulo formado na artéria e que impede a circulação do sangue. Isso ocorreu no meu cérebro e provocou um AVC (acidente vascular cerebral). Tive convulsões e entrei em coma. Claro, nem toda mulher que fuma e utiliza anticoncepcional acaba como eu. Mas o risco existe e aumenta conforme a tendência e o histórico de cada pessoa. Segundo os médicos que me trataram, sinais como dores de cabeça intensas podem ser indício de doença mais séria. As investigações feitas posteriormente pela equipe de médicos do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, onde fiquei internada por 72 dias - boa parte deles inconsciente -, indicaram que fui vítima de um silencioso e traiçoeiro problema ligado a hipertensão e circulação sanguínea. A combinação do cigarro, que é vasoconstritor, com a pílula anticoncepcional, que pode provocar complicações cardiovasculares em pessoas com tendência a essas patologias, potencializou o mal. Na época do acidente, eu era uma jovem ativa. Tinha amigos, namorado, saía para dançar e adorava viajar. Corria 12 quilômetros por dia e praticava remo. Na hora do almoço, aproveitava a folga no trabalho para me exercitar na academia. Aliás, a minha carreira deslanchava. Era farmacêutica recém-formada pela Universidade de São Paulo e cursava pós-graduação em administração industrial. Também fazia aulas de italiano, pois sonhava em estudar na Itália. Até fantasiava, às vezes, que poderia me casar por lá. Em 2 de maio de 1994, no fim do expediente, peguei meu irmão caçula na faculdade e voltamos para casa. Tinha combinado com minha mãe de irmos ao shopping, mas, quando escovava os dentes após o jantar, senti forte tontura. Só tive tempo de gritar por socorro antes de ter convulsões. Depois, só a escuridão. Acordei um mês e meio mais tarde.

Na cama do hospital, não conseguia me mover. Pior, não falava e nem mesmo balbuciava. Achei que estava dentro de um pesadelo, pois aquilo não podia ser real. Mas as horas e os dias foram passando, intermináveis, destruindo qualquer esperança de que ficaria boa. Muito menos ter a vida que sempre tive, ativa e dinâmica. Tecnicamente, possuo uma tetraparesia, lesão que causa paralisia dos membros, e isso permite apenas que eu tenha sensibilidade no corpo e faça pequenos movimentos com o braço esquerdo. O suficiente para que eu arraste a mão em câmera lenta e, com um único dedo, consiga digitar palavras e torná-las idéias e emoções.

Meu quarto era um entra-e-sai de enfermeiras e médicos. Espetavam-me injeções, punham e tiravam tubos por todos os lados e eu me sentia presa dentro do meu próprio corpo. Queria gritar, me fazer ouvir! As palavras e os sentimentos estavam todos ali, represados, ecoando no meu peito, mas ninguém podia escutá-los. O máximo que eu fazia era piscar os olhos. Muitas vezes, sentia desconforto com algo que me machucava, sem poder pedir ajuda. Tudo era uma grande e silenciosa tortura. Ainda no período crítico, o soro se soltou da minha veia e passei a madrugada inteira sem receber medicação, tremendo, morrendo de frio. Só foram se dar conta pela manhã, quando notaram a cama ensopada.

Minha família e os poucos amigos que restaram ajudaram a organizar os escritos, gravar disquetes, imprimir páginas. Uma amiga me levou até a responsável por uma editora, que gostou do que leu. Ela propôs que trabalhássemos no texto. Meu ritmo de produção era moroso e, muitas vezes, ficava tão emocionada que chegava a ter espasmos. Mas não me cansava. Passava horas a fio diante do computador. Seis meses mais tarde, lancei Sem Asas ao Amanhecer (O Nome da Rosa).

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