A paulistana Luciana Scotti era uma jovem ativa até ser vítima de uma lesão grave no cérebro que a deixou muda e tetraplégica aos 22 anos. Com muita força de vontade, ela recuperou o desejo de viver, reencontrou o amor, escreveu livros e hoje, aos 31, revela que é possível ser feliz depois de uma tragédia.
Na cama do hospital, não conseguia me mover. Pior, não falava e nem mesmo balbuciava. Achei que estava dentro de um pesadelo, pois aquilo não podia ser real. Mas as horas e os dias foram passando, intermináveis, destruindo qualquer esperança de que ficaria boa. Muito menos ter a vida que sempre tive, ativa e dinâmica. Tecnicamente, possuo uma tetraparesia, lesão que causa paralisia dos membros, e isso permite apenas que eu tenha sensibilidade no corpo e faça pequenos movimentos com o braço esquerdo. O suficiente para que eu arraste a mão em câmera lenta e, com um único dedo, consiga digitar palavras e torná-las idéias e emoções.
Meu quarto era um entra-e-sai de enfermeiras e médicos. Espetavam-me injeções, punham e tiravam tubos por todos os lados e eu me sentia presa dentro do meu próprio corpo. Queria gritar, me fazer ouvir! As palavras e os sentimentos estavam todos ali, represados, ecoando no meu peito, mas ninguém podia escutá-los. O máximo que eu fazia era piscar os olhos. Muitas vezes, sentia desconforto com algo que me machucava, sem poder pedir ajuda. Tudo era uma grande e silenciosa tortura. Ainda no período crítico, o soro se soltou da minha veia e passei a madrugada inteira sem receber medicação, tremendo, morrendo de frio. Só foram se dar conta pela manhã, quando notaram a cama ensopada.
Minha família e os poucos amigos que restaram ajudaram a organizar os escritos, gravar disquetes, imprimir páginas. Uma amiga me levou até a responsável por uma editora, que gostou do que leu. Ela propôs que trabalhássemos no texto. Meu ritmo de produção era moroso e, muitas vezes, ficava tão emocionada que chegava a ter espasmos. Mas não me cansava. Passava horas a fio diante do computador. Seis meses mais tarde, lancei Sem Asas ao Amanhecer (O Nome da Rosa).
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